Nem lembro quantos anos tinha quando comecei a vender jornal para minha vó, na cidade de Tabatinga-AM. Eu era muito novo (7 ou 8 anos). Ela era a única que recebia jornal da capital e tinha (ou não) que ter alguém para sair vendendo na rua, nas casas. O que sei é que com certeza ela não me pediu para fazer… eu me ofereci. O ganho parecia pouco, mas atendia meus objetivos: comprar bombom (“calaboca”) e chocolates colombianos.

Antes que perguntem, eu fazia essas ações enquanto estava em férias da escola. Senão mamãe ia dar uma peia de galho de goiabeira.

Precisava chegar cedo no trabalho, senão não ia vender nenhum jornal. Lá ia eu, normalmente acompanhado de um primo. Saia praticamente do centro da cidade, e ia caminhando até o aeroporto, ou até a fronteira de Letícia Brasil-Colômbia. Tinha que ter sorte para escolher o caminho de mais vendas. Apesar da distância, eu não cansava. Ia feliz, chutando lata, falando com as pessoas, oferecendo o jornal. Recebendo mais “não” que “sim”. Quando o cansaço batia pedia copo com água nas casas. Ás vezes voltava sem uma venda realizada.

Já em Fortaleza (que a mãe não leia isso), ajudava um amigo a encher garrafões com água para as casas do bairro. Era longe! Mas o salário dava para comprar um pacote de biscoito e uma coca cola. Já tinha ganho o dia! Normalmente fazia durante a tarde, depois da escola, viu?!

Onde quero chegar? Eu não precisava fazer aquilo que estava fazendo. Mas eu não gostava de ficar pedindo tanta coisa para minha mãe, pro meu pai… e fui crescendo com esse sentimento de trabalhar, mesmo que de forma pequena, para conquistar o que considerava grande para mim. As oportunidades apareciam e eu tinha que pegá-las.

Foram fases fundamentais em minha vida. Pois se eu não prestasse conta dos jornais com minha avó no outro dia ela me mandava embora: confiança abalada. Se eu vendesse um jornal velho, amassado, no outro dia o cliente não comprava mais de mim: credibilidade indo por água abaixo. Se chegasse atrasado, venda perdida. Se a água viesse com o garrafão sujo, o cliente não ia querer que eu pegasse mais água pra ele: qualidade não foi seguida. Se eu cobrasse caro pelo serviço, ele mesmo iria fazer o serviço e eu não teria mais meu biscoito Parmalat (ainda vendiam na época)!

Talvez todos esses acontecimentos possam ter sido coincidência, mas me ajudaram na formação profissional que tenho hoje, principalmente na área de vendas. O “sofrimento” enfrentado nas primeiras “profissões” em minha vida me tornou fortes para as dificuldades reais do mercado. Eu tinha que passar por isso para enxergar novas oportunidades.

Comparando com o passado, os atores permaneceram, as necessidade também, mas a maneira de enxergar mudou. As pessoas não compram mais jornais, e sim informação, entretenimento, diversão. Coisas muitas vezes intocáveis. As pessoas não compram mais um produto/serviço, mas o benefício que ele traz para as vidas delas. Naquela época eu tinha que fazer as pessoas precisarem daquilo que eu podia oferecer. Elas tinham que precisar da minha credibilidade, confiança, segurança, simpatia, praticidade, velocidade… eu tinha que tocar seu coração! Senão elas mudavam para o concorrente… que oferece o mesmo produto e mais barato.

Os objetivos hoje são bem maiores de que quando era criança. Não trabalho mais por um chocolate, mas por uma caixa de chocolates :). Os canais de vendas se diversificaram. Os concorrentes aumentaram. Os produtos são cada vez mais especializados. Os clientes estão cada vez mais exigentes. Mas, o prazer que eu tinha de fazer meu trabalho quando criança deve permanecer. Eu preciso saber onde está a água que o cliente quer, e trazer para ele de maneira simples e especial. Eu preciso levar o jornal como algo essencial… que irá mudar o dia do meu cliente. Preciso que o cliente fale positivamente para outras pessoas de mim: “Sabe aquele garoto do jornal? Todo dia ele está aqui com um sorriso no rosto! Pontualmente! Por que você não experimenta comprar dele? Final do ano ele me deu até um cartão de presente!”.

Um produto bom, associado à responsabilidade/credibilidade do vendedor e à alegria de uma criança, fará com que o relacionamento com os clientes permita o crescimento lucrativo de toda e qualquer empresa. Se já tem a alegria, que tal melhorar continuamente seu produto e manter sua credibilidade?

Quem quer um jornal?

2 comentários em “Pequenos pontos para grandes jogadas

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